Blog Memorarces

Por Rubia Arce e Colunistas

Sobre memorar-me

23 Jun 2017

Eu memoro

Tu memoras

Ele memora

 

Memorar-se = ato de se apoderar de suas memórias.

 

Confesso que nunca havia usado o verbo memorar para definir o que um dia fiz de forma absolutamente intuitiva.

 

Pra ser bem sincera, eu sequer havia pensado na existência de tal verbo.

 

Mas eu o pratiquei, e  tenho praticado,  cada vez mais o ato de me memorar.

 

Há alguns anos eu passei por uma grande transformação de vida.

 

Imagine a seguinte cena:

 

Um dia você está numa praia paradisíaca curtindo um momento de férias. Aquele momento sublime que você acha justo e digno aproveitar como uma recompensa da vida. Daí você está ali sentada em frente a um mar calmo, límpido e azul, tomando um drink e apreciando cada gole e a paisagem.

 
Eis que de repente uma forte onda se forma naquele horizonte azul e infinito. O tempo começa a se fechar em nuvens escuras e aquela enorme onda vai se aproximando de forma assustadora. Você então percebe que não há nada a fazer a não ser dar as mãos aos seus e sair dali correndo, sem olhar pra trás, sem se preocupar com o que está deixando por ali. E essa onda chega furiosamente varrendo e arrastando tudo que vê pela frente. E você assiste aquilo tudo de longe, já abrigada por um teto que te protege. 


Passado o susto e o trauma, você se dá conta de que o mar poderia ter levado muito mais coisas além daqueles óculos de grife ou aquela bolsa do momento, comprados especialmente para a ocasião. E agradece porque seus mais preciosos bens foram preservados, e estão ali ao seu lado.

 

Depois do estrago, é hora de se refazer das perdas, de reconstruir a vida e se apoderar do que te restou: as memórias de todos os bons momentos vividos até o dia do fatídico incidente.

 

Eu sou essa pessoa que sobreviveu a esse tsunami.

 

Pouco me restou da vida que levei anos pra construir.

 

Além das perdas materiais, eu havia perdido a minha identidade pessoal e profissional. Eu não sabia mais quem eu era, nem tampouco qual era o meu papel no novo mundo que começava a surgir diante de mim.

 

Foi um longo caminho para reconstruir o que desmoronou.

 

Eu precisei sair de mim mesma ou de quem eu achava que era.

 

“Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós mesmos”. José Saramago em “O conto da ilha desconhecida”

 

E ouso até dizer que o caminho que venho percorrendo é um caminho de muitas trilhas, distintas e sinuosas, mas que vem me levando ao encontro da pessoa mais importante da minha vida: EU.

 

São os caminhos que me levam ao autoconhecimento, à auto aceitação, ao auto perdão e que me ajudam a ressignificar a vida.

 

Nesses caminhos percorridos (sem linha de chegada), fui percebendo que eu tinha que me reconciliar com algumas coisas que fui deixando pra trás. E estava tudo lá: guardado, quase que intacto, em minhas caixinhas internas. Bastava que eu as acionasse em um campo que usamos bem pouco: o das boas memórias.

 

Afinal, o que vivi, o que senti, os lugares por onde andei e as pessoas que cruzaram o meu caminho fazem de mim um ser único e especial.

 

E o que posso lhes dizer é o quão foi, e tem sido, reconfortante me apoderar disso. Como tem sido libertador olhar pra trás e pensar: o que sou hoje nada mais é do que a somatória de tudo que fui no passado. Das coisas boas às não tão boas assim, hoje eu consigo olhar pra aquela ilha desconhecida e me lembrar do dia que o mar se enfureceu e me levou muito mais que coisas e objetos. Ele me levou coisas que hoje não me servem ou fazem sentido pra mim: crenças limitantes, padrões arraigados, valores que não me representam mais.

 

Mas o movimento é cíclico, e o mesmo mar que leva, também traz...

 

Traz o novo, de forma límpida e suave, num movimento contínuo e sereno.

 

Ele ainda pode trazer  alguns tesouros perdidos e esquecidos nessas marés.

 

E assim como as águas do mar, a vida também é cíclica: fluxo e refluxo.

 

E mesmo que em algum momento sejamos pegos por algum Tsunami, ele vem pra nos mostrar que o que tem que ficar, permanecerá: intacto e resguardado dentro de ti.

 

 

 

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